O Metallica voltou a demonstrar sua capacidade de transformar apresentações ao vivo em acontecimentos que vão além da música. Durante o show realizado em 28 de junho no Principality Stadium, em Cardiff, no País de Gales, a banda surpreendeu o público ao executar uma versão de “Delilah”, clássico eternizado por Tom Jones e proibido de ser tocado oficialmente no estádio desde 2023. A performance aconteceu durante o tradicional momento da turnê M72 em que o guitarrista Kirk Hammett e o baixista Robert Trujillo apresentam interpretações de músicas associadas à cultura local.
A escolha da canção chamou atenção não apenas pelo caráter simbólico, mas também pelo histórico de controvérsias envolvendo a obra. Proibida pela União Galesa de Rugby (WRU) devido às referências à violência doméstica presentes em sua letra, “Delilah” continua sendo uma das músicas mais populares e emocionalmente associadas à identidade cultural do País de Gales. Mesmo diante da restrição oficial, milhares de fãs presentes no estádio acompanharam a performance do Metallica em coro, transformando o momento em um dos mais comentados da passagem da banda pela cidade.
uma tradição da turnê M72
Desde o início da turnê M72, o Metallica incorporou ao repertório um momento especial dedicado à cultura local das cidades visitadas. Durante esse segmento, Kirk Hammett e Robert Trujillo costumam interpretar versões descontraídas de músicas emblemáticas para o público regional, frequentemente provocando reações entusiasmadas da plateia.
Em Cardiff, a escolha recaiu sobre “Delilah”, canção lançada originalmente em 1968 e gravada por Tom Jones, um dos artistas mais conhecidos do País de Gales. O gesto rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais, especialmente porque a música está oficialmente proibida de ser executada durante eventos esportivos realizados no Principality Stadium.
Apesar da proibição institucional, a recepção do público demonstrou que a ligação emocional entre os galeses e a canção permanece extremamente forte. Assim que Trujillo começou a introduzir a música, milhares de pessoas presentes no estádio passaram a cantar junto, transformando a breve homenagem em um dos momentos mais celebrados da apresentação.
A tradição de incorporar elementos culturais locais se tornou uma das marcas registradas da atual turnê do Metallica. Em diversas cidades, Hammett e Trujillo já interpretaram clássicos regionais, homenageando artistas e movimentos musicais importantes para cada país visitado. Em Cardiff, no entanto, a escolha acabou adicionando uma camada extra de significado devido à controvérsia que envolve a obra.

a polêmica envolvendo “Delilah”
A decisão da União Galesa de Rugby de retirar oficialmente “Delilah” dos eventos realizados no Principality Stadium ocorreu em 2023. A medida foi tomada após anos de debate sobre o conteúdo da letra escrita por Barry Mason e Sylvan Whittingham.
Na canção, o narrador descreve o assassinato de uma mulher motivado por ciúme e desespero. O tema levou organizações e setores da sociedade a questionarem a permanência da música como um dos tradicionais cantos entoados pela torcida galesa durante partidas internacionais de rugby.
Embora a WRU tenha optado pela retirada da música de seus eventos oficiais, a decisão nunca foi unanimidade entre os torcedores. Muitos defendem que a canção deve ser interpretada dentro de seu contexto histórico e artístico, enquanto outros argumentam que a celebração pública da obra pode ser interpretada como inadequada diante do debate contemporâneo sobre violência doméstica.
O episódio envolvendo o Metallica acabou reacendendo essa discussão. Ao incentivar o público a cantar “Delilah”, Robert Trujillo não fez qualquer comentário sobre a proibição ou sobre o debate social envolvendo a música. Ainda assim, a reação espontânea da plateia evidenciou o quanto a composição continua presente no imaginário cultural galês.
A apresentação também reforçou uma característica histórica do Metallica: a disposição da banda em realizar escolhas artísticas que frequentemente geram repercussão e discussão pública, mesmo quando não há necessariamente uma intenção explícita de provocar controvérsia.
metallica também ajudou a comunidade
Além da repercussão musical, a passagem do Metallica por Cardiff também teve impacto social direto na comunidade local. Por meio da fundação beneficente All Within My Hands, criada pela própria banda, foram doadas £20 mil ao Banco de Alimentos de Cardiff.
Segundo informações divulgadas por veículos internacionais, a contribuição permitirá a distribuição de aproximadamente 9 mil refeições, beneficiando cerca de mil pessoas em situação de vulnerabilidade social na região.
A CEO do Banco de Alimentos de Cardiff, Rachel Biggs, revelou à BBC que inicialmente teve dúvidas sobre a autenticidade da comunicação recebida. Segundo ela, a notícia parecia improvável em um primeiro momento, até que foi confirmada a origem da doação.
A fundação All Within My Hands tem desempenhado um papel importante nas atividades sociais ligadas ao Metallica desde sua criação, promovendo iniciativas voltadas para combate à insegurança alimentar, educação profissional e apoio a comunidades afetadas por crises econômicas e desastres naturais.
Dessa forma, a passagem da banda pelo País de Gales acabou sendo marcada por dois acontecimentos distintos, mas igualmente impactantes: a repercussão provocada pela execução de uma música oficialmente vetada no estádio e uma contribuição concreta para ajudar pessoas em situação de necessidade. Em ambos os casos, o Metallica demonstrou, mais uma vez, sua capacidade de ultrapassar os limites tradicionais de um espetáculo de rock e gerar discussões que alcançam dimensões culturais e sociais mais amplas.



