A relação entre literatura clássica e teatro contemporâneo ganha um novo capítulo com a estreia do espetáculo Pai Contra Mãe Ou Você Está Me Ouvindo?, do Coletivo Negro. Inspirada no conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, a montagem propõe uma releitura que transporta o enredo original para o Brasil atual, mantendo o conflito central da obra enquanto amplia o debate sobre racismo estrutural e desigualdade social.
Com direção e dramaturgia de Jé Oliveira, o espetáculo parte de um dos textos mais contundentes da literatura brasileira para construir um paralelo direto com a realidade contemporânea. A proposta não é apenas revisitar a narrativa de Machado, mas evidenciar como os mecanismos de opressão presentes no período escravocrata continuam a se manifestar, ainda que sob novas formas, no cotidiano urbano atual.
adaptação atualiza conflito clássico para o presente
No conto original, Machado de Assis apresenta a história de Candinho, um homem que, diante de dificuldades financeiras, passa a capturar pessoas negras escravizadas que tentavam fugir. A narrativa evidencia as contradições de um sistema que coloca indivíduos em situação de vulnerabilidade uns contra os outros, evidenciando a brutalidade estrutural da escravidão no Brasil.
Na adaptação do Coletivo Negro, esse conflito é transportado para o presente por meio de novos personagens e situações. A trama acompanha Zaíra da Conceição, uma mulher negra e grávida que é acusada injustamente de furto dentro de um supermercado. O episódio desencadeia uma sequência de tensões que expõem práticas de vigilância e suspeição frequentemente direcionadas a corpos negros em espaços públicos e privados.
O enredo também apresenta Osvaldo, um homem negro recém-contratado como segurança do estabelecimento. Diante da situação envolvendo Zaíra, ele se vê diante de um dilema: seguir as regras impostas pelo trabalho ou questionar a abordagem violenta e discriminatória que se estabelece. Esse impasse reproduz, em chave contemporânea, o conflito moral já presente na obra de Machado de Assis.
A atualização do contexto permite que o público reconheça paralelos diretos entre passado e presente, reforçando a ideia de que determinadas estruturas sociais permanecem ativas, mesmo após mudanças históricas significativas.

trajetória do coletivo negro no teatro brasileiro
Com 17 anos de atuação, o Coletivo Negro construiu uma trajetória marcada pela investigação de temas ligados à identidade negra e às dinâmicas sociais brasileiras. O grupo tornou-se referência no teatro contemporâneo ao desenvolver trabalhos que dialogam com questões históricas, políticas e culturais a partir de uma perspectiva crítica.
Formado por artistas oriundos da Escola Livre de Teatro de Santo André e da Escola de Arte Dramática da USP, o coletivo nasceu com o objetivo de ampliar a presença de narrativas negras nos palcos. Ao longo de sua trajetória, o grupo consolidou uma linguagem que combina pesquisa, experimentação e engajamento social.
A montagem de Pai Contra Mãe Ou Você Está Me Ouvindo? reforça esse compromisso ao revisitar uma obra clássica da literatura brasileira sob uma ótica contemporânea. Ao fazer isso, o coletivo não apenas homenageia Machado de Assis, mas também propõe uma leitura que enfatiza aspectos estruturais da sociedade brasileira que ainda permanecem em debate.
Esse tipo de abordagem também contribui para aproximar o público de textos clássicos, oferecendo novas camadas de interpretação e tornando essas obras mais acessíveis e relevantes para as discussões atuais.
temporada no sesc santo amaro e detalhes da apresentação
O espetáculo será apresentado no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, com sessões distribuídas ao longo de três dias. A programação inclui apresentações no dia 7 de maio, quinta-feira, às 15h e às 20h; no dia 8 de maio, sexta-feira, às 10h e às 20h; e no dia 9 de maio, sábado, às 19h.
Com duração aproximada de 90 minutos, a peça possui classificação indicativa de 14 anos. Os ingressos estão disponíveis com valores de R$60 (inteira), R$30 (meia-entrada) e R$18 para credencial plena, podendo ser adquiridos por meio do aplicativo Credencial Sesc SP ou diretamente nas bilheterias das unidades.
A escolha do Sesc Santo Amaro como local da temporada dialoga com o perfil da instituição, que historicamente promove atividades culturais voltadas à diversidade e ao debate social. A presença do espetáculo na programação reforça essa linha, oferecendo ao público uma obra que combina linguagem artística contemporânea com reflexão crítica.
Ao atualizar o conto de Machado de Assis, o Coletivo Negro propõe uma experiência teatral que vai além da adaptação literária. A montagem convida o espectador a observar continuidades históricas e a refletir sobre o papel das estruturas sociais na construção das relações atuais, evidenciando como o teatro pode atuar como ferramenta de análise e questionamento da realidade.



