A realização de um evento que prometia valorizar a produção musical independente do Distrito Federal terminou marcada por conflitos, cancelamentos e acusações de desrespeito. O projeto “Som de Garagem”, inserido na programação do Brasília Auto Indoor, teve apresentações interrompidas e shows cancelados após intervenções diretas da organização, que alegou problemas técnicos relacionados ao volume das bandas. O episódio provocou forte reação de músicos, produtores e representantes da cena cultural brasiliense.
A situação rapidamente deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a levantar discussões mais amplas sobre o tratamento dado ao rock autoral na capital federal. Artistas afirmam que houve falta de planejamento e, principalmente, desconsideração com o trabalho previamente alinhado com a produção do evento.
conflitos começaram com reclamações sobre volume
Os primeiros sinais de tensão surgiram ainda no início da programação musical, quando surgiram reclamações pontuais sobre o nível de volume das apresentações. No entanto, o cenário se agravou no segundo dia, quando a organização solicitou uma redução significativa do sistema de som, exigindo que o P.A. fosse diminuído em até 50% já durante uma das primeiras apresentações do chamado “duelo de bandas”.
O produtor cultural Estevam Teixeira, envolvido na curadoria do projeto, relatou que o tratamento recebido por parte da organização foi inadequado e surpreendente, considerando que todo o material das bandas havia sido enviado com antecedência. Segundo ele, a escolha dos artistas seguiu critérios previamente estabelecidos e conhecidos pelos responsáveis do evento.
De acordo com o produtor, houve uma declaração por parte da organização que gerou ainda mais desconforto: “se soubesse que era esse tipo de banda, não teria aprovado”. A fala teria sido acompanhada da justificativa de que se esperava um repertório mais alinhado ao rock clássico, especialmente com referências dos anos 80.
Estevam reforça que todas as informações — incluindo releases, perfis dos integrantes e materiais audiovisuais — foram previamente disponibilizadas. “Eles receberam tudo previamente. Falar isso na hora é um descaso total com o meu trabalho e com as bandas”, afirmou.

expulsão do palco e cancelamento geram revolta
O momento mais crítico ocorreu quando, segundo relatos dos envolvidos, um dos responsáveis pelo evento teria subido ao palco para interromper uma apresentação em andamento. A banda executava um cover do Black Sabbath no momento da intervenção, o que intensificou a repercussão negativa do episódio.
Para os artistas, a atitude ultrapassou qualquer justificativa técnica e revelou um problema mais profundo na condução do evento. “Para mim, o nome disso é preconceito. Um preconceito ao rock na cidade do rock”, declarou Estevam.
O músico Augusto “Guto” Mota também relatou experiências negativas durante o evento. Ele participaria do “Duelo de Bandas” com seu grupo de Deathcore, mas teve sua apresentação cancelada antes mesmo de começar. Segundo ele, o ambiente era desorganizado e marcado por decisões de última hora.
Guto descreveu atrasos causados por mudanças na programação e criticou a postura da organização ao interromper apresentações de forma abrupta. “A estrutura estava lá — um palco grande, luzes — mas eles não queriam que a gente a aproveitasse. As bandas tiveram o som desligado em cima do palco. Ficamos de 11h da manhã até as 15h nessa inutilidade”, afirmou.
O músico também destacou o impacto pessoal e profissional da situação, mencionando investimentos realizados para o show. “Nós não somos ratos de laboratório para testes, do tipo: ‘ah, no próximo evento vou tratar melhor’. Foi desorganização”, completou.
organização aponta problema acústico e promete mudanças
Diante da repercussão, a organização do Brasília Auto Indoor se manifestou oficialmente para esclarecer os acontecimentos. Em nota, afirmou que o cancelamento das apresentações não foi intencional, mas resultado de limitações acústicas do espaço onde o evento foi realizado.
Segundo os responsáveis, o volume das bandas teria interferido em outras áreas do evento, como praça de alimentação e atividades paralelas, incluindo uma arena de e-sports. A tentativa de negociação para redução do volume não teria chegado a um consenso, levando à interrupção dos shows.
A organização também comentou sobre a polêmica frase atribuída a um de seus integrantes, afirmando que houve um mal-entendido. De acordo com o comunicado, a expressão teria sido usada como forma de elogio à potência sonora das bandas, e não como crítica.
Apesar disso, o grupo reconheceu falhas no planejamento e admitiu que não houve alinhamento adequado entre a curadoria musical e as condições técnicas do espaço. Em nota pública divulgada nas redes sociais, os organizadores afirmaram que o episódio gerou frustração e desrespeito aos artistas e ao público.
Como resposta, prometeram revisar processos internos, incluindo a curadoria e a análise técnica de futuras edições. Também foi mencionado o compromisso de realizar estudos acústicos mais detalhados para evitar novos conflitos.
Representantes da cena cultural também se posicionaram. João Paulo Mancha, diretor do Setorial Cultura Rock, destacou a importância de tratar o ocorrido com seriedade. Para ele, o episódio impacta diretamente a valorização do gênero na capital.
“O Setorial Cultura Rock vem trabalhando pela valorização do rock como patrimônio cultural do DF. O cancelamento do duelo de bandas desvaloriza a cena como um todo. Essa foi uma situação “pesada demais” para acontecer em plena a Capital do Rock”, afirmou.
Ele também ressaltou a necessidade de reparação junto aos artistas afetados e reforçou a importância de diálogo entre organizadores e a cena local para evitar novos episódios semelhantes.
Leia a Nota da organização na íntegra:




